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terça-feira, 6 de abril de 2010

Estreia: "Os mortos viajam de metro"


(Sandra Medeiros e Susana Teixeira)

(Madalena Boléo e Margarida Marecos)


(Raquel Alão e Sónia Alcobaça)

‘Os Mortos Viajam de Metro’ estreia dia 9


Ópera para seis mulheres suicidas no
Teatro Municipal São Luiz



O que têm em comum Florbela Espanca, Virginia Woolf, Sylvia Plath e Sarah Kane? São quatro escritoras que tiveram o mesmo fim: encontraram a morte às suas próprias mãos, quando decidiram que a vida já lhes bastava. ‘Os Mortos Viajam de Metro’, a ópera com que o jovem compositor Hugo Ribeiro (n. 1983) venceu a segunda edição do concurso ‘Ópera em Criação’, do Teatro Municipal São Luiz, versa sobre esta contradição: quantas vezes estão unidos, na mesma pessoa, a vontade de criar e de se auto-destruir?


O espectáculo fará a sua estreia absoluta no dia 9 de Abril, às 21h00, no Teatro S. Luiz - onde cumprirá uma curta série de récitas (até domingo) - e propõe-nos rever ainda Agatha Christie (outra escritora que, embora tenha falhado, também tentou o suicídio) e a recriação de uma das mais interessantes figuras femininas da dramaturgia mundial: a ‘Ofélia' de William Shakespeare.

Com libreto de Armando Nascimento Rosa e encenação de Paulo Matos, em cena conta-se a história de uma jovem que vemos em sucessivas tentativas de suicídio e a que um coro de grandes figuras históricas femininas acompanham, em reflexões sobre vida e morte, sobre o fim por todas desejado e nunca lamentado.

Num cenário sóbrio mas muito elegante e em belos figurinos de época (criações de Bruno Guerra), eis um espectáculo em que tudo funciona para o mesmo fim: o deleite dos sentidos.

A ópera de Hugo Ribeiro - que anteriormente viu criações suas serem tocadas na Gulbenkian e que em 2007 recebeu o 1º Prémio do Concurso de Composição da Póvoa do Varzim (na categoria de Orquestra) - oferece-se como uma peça musical coerente e apreensível no seu conjunto e encontrou em Paulo Matos um encenador competente e sensível, que soube sublinhar o que nela há de trágico e exaltante mas também o seu lado cómico.

O espectáculo, que dura pouco mais de uma hora, tem direcção musical de João Paulo Santos, à frente da Orquestra Sinfónica Portuguesa, e nele cantam Madalena Boléo, Margarida Marecos, Raquel Alão, Sandra Medeiros, Sónia Alcobaça e Susana Teixeira.

É para ver dias 9 e 10 às 21h00, dia 11 às 17h30. Para maiores de 16.


Ana Maria Ribeiro
in Correio da Manhã

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Críticas


John Allison - Opera

"(...) The plotting of Hagen (James Moellenhoff), Gunther (a powerful-voiced Michael Vier) and Gutrune (the soft-grained soprano Sónia Alcobaça) is vividly done, and Gunther and Gutrune are first discovered sharing a jacuzzi - adding yet another layer of incest to the tangled Ring relationships."

John Allison - Opernwelt

"(...) Die Intrigen von Hagen (James Moellenhoff), Gunther (mit kraftvoller Stimme: Michael Vier) und Gutrune (mit feinkörnigem Sopran: Sónia Alcobaça) kommen lebhaft, erregt. Dass man Gunther und Gutrune zunächst gemeinsam in einem Jacuzzi sieht, spinnt das Inzest-Motiv im «Ring» um eine Episode weiter."


Teresa Cascudo - Mundoclasico.com


"(...) En el lado oscuro, Michael Vier (Gunther), James Moellenhoff (Hagen), Johann Werner Prein (Alberich) y Sónia Alcobaça (Gutrune), fueron también magníficamente convincentes en el aspecto teatral y estuvieron en un buen nivel desde el punto de vista vocal. Por un lado, tuvimos a Moellenhoff, de voz oscura y gesto malvado, tanto como Prein, que es uno de los mejores artistas que han participado en este Anillo. Por otro, a los dos hermanos, de los que me cuesta no destacar a Sónia Alcobaça. Aunque no la conozco personalmente, poseo por la joven soprano portuguesa un especial cariño, que se debe a la valentía con la que está conduciendo su carrera. Esto tiene particular mérito en un medio como el portugués, pequeño y que no ofrece, por lo tanto, demasiadas oportunidades para desarrollar de forma coherente (y sin destrozarse la voz) una carrera tan específica como es la una cantante lírica. Se mueve bien en el registro de soprano lírico spinto. Es muy expresiva, con segura zona grave y timbre brillante, lo que le permite abordar papeles como el de Gutrune. Se resintió un poco del peso de la responsabilidad, lo que no es de extrañar teniendo en cuenta las escasas veces en las que el São Carlos abre sus puertas a cantantes portugueses asumiendo papeles tan relevantes."

Antônio Esteireiro - Opera Actual

"(...) Para los cantantes representaba sin duda un esfuerzo suplementario el ritmo alucinante de la dirección escénica, pero ello no impidió la excelencia de sus prestaciones. (...) Entre los demás solistas cabe destacar al barítono Johann Werner Prein (Alberich), el único que ha cubierto todo el ciclo, y el bajo James Moellenhoff (Hagen), con Michael Vier (Gunther), Sónia Alcobaça (Gutrune) y Maria Luisa de Freitas (Segunda Norna)."

Pedro Boléo - Público

"(...)Para além do extraordinário Prein, destaquem-se ainda as qualidades de Michael Vier (Gunther) e a consistência de James Moellenhoff (Hagen), bem como Sónia Alcobaça, que brilhou vocal e teatralmente no exigente papel de Gutrune."

Laurent - blog.parisbroadway.com

"Les chanteurs, malgré de petites faiblesses, sont globalement excellents. Leur implication au service de la conception du metteur en scène fait plaisir à voir."

ilpastorfido.blogspot.com

"Sónia Alcobaça (Gutrune) - Gostei muito de a ouvir, tem um timbre bonito, e fico feliz por ver uma portuguesa como seconda-donna num teatro que é monopolizado maioritariamente por estrangeiros."

Blog: Aurora luminosa

"Nas vozes, destaco James Moellenhoff (Hagen), pela sua solidez e segurança; e Gutrune (Sónia Alcobaça) de voz harmoniosa e bem timbrada."

Jorge Calado - Expresso

"Tive a oportunidade de assistir novamente (dia 18) a "Götterdämmerung", no São Carlos. Agora bem rodada, esta 4a récita foi uma revelação: o maestro Letonja conseguiu tirar o melhor rendimento duma orquestra transfigurada (em relação à estreia). Se juntarmos a recriação genial de Vick e uma Sónia Alcobaça (Gutrune) e um James Moellenhoff (Hagen) no seu melhor, temos uma gloriosa tarde de ópera! Confirma-se, uma vez mais, que os críticos não devem frequentar as estreias."

Facebook - Ana Cano

"Gostava de felicitá-la. Foi uma muito, muito feliz surpresa esta sua Gutrune! Gostei de conhecê-la, Sónia! - de ouvi-la (timbre tão agradável!), de vê-la (que expressividade!: tudo lhe passa pelos olhos!, pelas delicadas feições que, a cada momento, e tão perfeitamente!, tão exactamente!, tomam para si a expressão do sentir experimentado, do instante, mais do que representado, ali vivido...).
Parabéns!! Felicidades! E... obrigada, Sónia!!"


Artes & Espectáculos - "Crepúsculo dos Deuses" no São Carlos - RTP Noticias, Vídeo

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Jornal Público - "Uma ópera em construção"



Na produção de Let's Make an Opera!, que hoje se estreia na Gulbenkian, o ambiente doméstico oitocentista que deu origem à famosa ópera para crianças de Benjamin Britten é transportado para uma escola do século XXI.

Como se faz uma ópera? A pergunta é simples e breve, mas a resposta é longa e diverge por muitos caminhos. Mas é também fascinante, sobretudo quando podemos participar no processo. A ideia já estava implícita quando o grande compositor britânico Benjamin Britten (1913-1976) criou em 1949 Let's Make an Opera! - An Entertainment for Young People (Vamos fazer uma ópera! - Um entretenimento para jovens), uma obra com libreto de Eric Cozier que coloca em cena uma família cujas crianças, sem nada para fazer durante as férias, decidem montar uma ópera intitulada The Little Sweep (O Pequeno Limpa-Chaminés).

O actor e encenador Paulo Matos foi mais longe e realizou uma versão portuguesa com um novo texto teatral que coloca a acção inicial numa escola do século XXI. Integrado no projecto Descobrir - Programa Gulbenkian Educação para a Cultura, o espectáculo estreia hoje, às 20h00, no Grande Auditório Gulbenkian e ficará em cena até dia 30. A direcção musical é de Osvaldo Ferreira e o elenco envolve 37 crianças e jovens, além de vários cantores profissionais.

A maior parte das crianças gosta de desmontar os brinquedos para ver como são feitos. Em larga escala e num processo inverso, pois aqui trata-se de construir, há um paralelo dessa atitude nesta encenação. "O projecto original de Britten tem um cariz pedagógico e essa intenção mantém-se", disse Paulo Matos ao P2 no intervalo de um dos ensaios. "O ponto de partida é desnudar, desmontar e mostrar a maneira de construir um espectáculo destes, com o público a assistir a todas as etapas." O encenador, que já tinha concebido uma outra versão da peça no âmbito da Lisboa 94-Capital Europeia da Cultura, decidiu trocar o ambiente doméstico original e transportar a acção para uma escola do século XXI. "Britten não desenvolveu a ideia de modo inteiramente explícito, havia apenas uma intenção geral. Hoje, o lugar por excelência na sociedade onde o jovem tem possibilidades de desenvolver um projecto artístico interdisciplinar é a escola. Resolvi criar um ambiente escolar contemporâneo para o mal e para o bem, pois isso comporta um espectáculo muito trabalhoso e sempre à beira de algum caos. A maior parte da peça mostra trinta e muitas crianças a funcionar em turma e muitas vezes em algazarra."

O professor Ricardo

É dentro dessa escola que nasce a ideia de criar um projecto artístico que tem o contributo de todos os seus elementos (professores e alunos). "Até o maestro Osvaldo Ferreira vai participar!", diz Paulo Matos. "Ele é o professor Ricardo, o professor de Informática que estudou música que será convidado a ser o compositor da ópera." Não é a primeira vez que Osvaldo Ferreira pisa um palco como actor. "Já é a terceira vez que o Paulo me obriga! Começou com a História do Soldado, de Stravinsky, e na ópera O Empresário, de Mozart, fez um texto divertidíssimo para mim", diz o maestro. "Se ele continuar a oferecer-me emprego muitas vezes, um destes dias ainda troco a música pelo teatro!", ironiza.

Paulo Matos diz que quis transformar o espectáculo numa construção ao vivo. "Vemos formar-se o grupo da escrita, o grupo da composição, o grupo da investigação, os cenários começarem a aparecer, as paredes a rodar e a mostrar a outra face, martelam-se lareiras, provam-se figurinos, fazem-se ensaios musicais, até que, de repente, a ópera começa porque já está pronta."

A acção da ópera propriamente dita, O Limpa-Chaminés, é mantida no século XIX, levando assim os alunos a fazer pesquisa histórica. Esta conta-nos a história do pequeno Sam (João na versão portuguesa), um miúdo que é obrigado a trabalhar aos nove anos, depois de ter sido vendido pelo pai aos limpa-chaminés. Um dia fica preso na chaminé na casa de uma família (na versão original é a mesma família que vemos na primeira parte do espectáculo), que o ajuda a libertar-se de uma vida de escravidão.

No texto teatral que escreveu, Paulo Matos criou também um paralelo com esta situação. "Na pesquisa das razões dramatúrgicas pensei muitas vezes: como é que dentro de uma escola contemporânea se havia de criar uma história à volta de um limpa-chaminés? Então lembrei-me que podia surgir uma criança excluída da escola - como temos tantas; infelizmente, os últimos números indicam um alarmante abandono escolar no 9.º ano - e maltratada pela família." Uma noite, essa criança entra na escola talvez para roubar comida ou dormir num cantinho e fica presa nas condutas do ar. O encenador explica que a situação permite até construir uma cena de chamamento dentro da conduta com um trecho musical de Britten igual ao que se ouve depois na ópera, quando João fica preso na chaminé.

37 crianças

No que diz respeito à selecção dos intérpretes, o trabalho começou há vários meses, quando foi lançado o desafio às escolas de música de Lisboa. Das dezenas de crianças ouvidas em audição foram seleccionadas 37. Nos primeiros ensaios procedeu-se à escolha dos melhores protagonistas para a ópera e numa outra fase os maestros Victor Paiva (responsável pelo coro) e Osvaldo Ferreira iniciaram a preparação musical. Os participantes têm idades que oscilam entre os 8 e os 17 anos e para as personagens principais da ópera há três elencos. Os papéis dos adultos são feitos por cantores profissonais (Sónia Alcobaça, Maria Luísa de Freitas, Luísa Barriga, Luís Rodrigues, João Queirós, entre outros) e a componente instrumental é assegurada por jovens músicos, vários deles em início de carreira.

"Num projecto destes, sobretudo quando reconhecemos que há algum talento, é triste para algumas das crianças verem os outros fazer os papéis principais e eles não terem essa oportunidade. Daí que arranjámos espaço para três elencos", explica Osvaldo Ferreira. "É importante que todos sintam o que é estar em cima do palco e a dificuldade e responsabilidade que isso implica. Mas o mais importante no projecto não é o número de linhas que as crianças cantam ou o número de frases que dizem, mas a experiência." Osvaldo Ferreira elogia ainda a audácia de Paulo Matos na criação de uma parte teatral "muito complexa e trabalhosa", onde se correm "riscos enormes" devido à quantidade de pessoas em palco.

A peça de Britten prevê também momentos em que o público (crianças e adultos) se possa juntar ao coro da ópera e entoar algumas das canções. Os textos e partituras encontram-se disponíveis no site da Gulbenkian, mas no momento do espectáculo haverá oportunidade de as aprender. "Durante a parte teatral há um momento em que o professor já passou para a função de maestro e ensaia com o público as canções, cujas letras serão projectadas num ecrã", explica Paulo Matos. "Na minha outra experiência, em 94, nem todo o público cantou. Mas há sempre uma parte que traz as canções preparadas e outra que é contaminada na altura. Cria-se então um ambiente mágico. É a sensação de que cada um também faz parte do espectáculo."

Osvaldo Ferreira considera Let's Make an Opera uma "criação muito feliz" de Britten, compositor que dedicou uma importante parte da sua produção às crianças, jovens e músicos amadores. "As melodias e outros recursos chegam muito perto do imaginário das crianças. É, por exemplo, o caso da Canção do Marinheiro. A peça tem momentos muito divertidos mas também líricos no sentido mais terno, como a canção da noite. E as correrias e as pantomimas que servem de ligação entre as cenas têm até um pouquinho de linguagem cinematográfica."

O maestro refere que Britten fez questão de introduzir alguns ritmos mais difíceis com um intuito pedagógico, por exemplo passagens em compasso de cinco por quatro, com a intenção de obrigar os jovens a trabalhar ritmos que não são o tradicional quaternário ou ternário. Os solistas têm também os seus momentos de dificuldade. "Britten não quis dar tudo de mão beijada e procura desenvolver as capacidades musicais dos participantes. Eu tenho insistido para que eles façam tudo com o maior rigor, mas temos de ter a consciência de que não são profissionais. A intenção é fazer o melhor possível."

Também a instrumentação é muito original, incluindo quarteto de cordas, piano a quatro mãos e percussão. "Foi escolhida por razões práticas, já que é uma orquestra descartável bastante fácil de obter. A obra pode ser feita num auditório ou pequeno auditório ou mesmo numa sala pequenina sem fosso. Funciona muito bem, pois a música está muito bem escrita e a peça tem todos os condimentos para resultar num óptimo espectáculo."

Texto: Cristina Fernandes

in Jornal Público 19 de Junho de 2009

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Traz a tua família, colegas e amigos e prepara-te para cantares connosco!





quinta-feira, 11 de junho de 2009

Fazer uma ópera numa escola do século XXI


Criado por Benjamin Britten, no final dos anos 40, o projecto Let’s Make an Opera (com libreto de Eric Crozier) propõe-se fazer da construção de uma ópera o próprio espectáculo. Originalmente, tal como foi concebido por Britten, o espectáculo apresenta na primeira parte uma peça de teatro habitada por uma família cujas crianças decidem construir uma ópera. Chamam-lhe The Little Sweep (O Pequeno Limpa-Chaminés) e a acção decorre no século XIX. Toda a primeira parte do espectáculo, ocupada pela escrita e pelos ensaios das crianças, é uma preparação do que vem a seguir, quando a ópera é então posta em cena. O libreto conta a história do pequeno Sam (João, na versão portuguesa), que é obrigado a trabalhar aos nove anos, vendido pelo pai aos limpa-chaminés e por eles explorado. O seu destino parece traçado até que um dia fica preso na chaminé da casa onde vive a família que conhecemos na primeira parte do espectáculo. As crianças descobrem Sam e resolvem libertá-lo de uma vida de escravidão. Dão-lhe banho, alimentam-no e ajudam-no a fugir.

Pode dizer-se que "Vamos Fazer uma Ópera – Um Entretenimento para Jovens", com estreia a 19 de Junho no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, é um espectáculo "completo". Tem teatro, tem música, tem ópera. No elenco tem crianças e adultos, tem solistas e coro, e mesmo o público é convidado a participar.

A nova versão portuguesa (com três actos) de
Let’s Make an Opera, embora fiel à ópera, integra um novo conceito: o encenador Paulo Matos, que já tinha montado este espectáculo nos anos 90, quis tornar a primeira parte muito mais abrangente e acentuar-lhe a importância. De uma casa particular, a acção passa para uma escola básica contemporânea, onde alunos e professores se propõem construir uma ópera. Mas Paulo Matos foi mais longe. "Procurei estabelecer um paralelo entre a primeira e a segunda parte do espectáculo, introduzindo na escola uma criança que também é vítima de exploração infantil, tal como o pequeno limpa-chaminés na ópera", explica o encenador. É assim que surge o João, um menor marginalizado, que se infiltra na escola com a intenção de roubar alguma coisa de valor o pai exige-lhe que leve dinheiro para casa, mas que ali procura também um lugar onde possa dormir e abrigar-se do frio. É descoberto pelos alunos da escola, que acabam por acolher com grande entusiasmo o novo colega. A sua salvação chega através de um projecto artístico que o integra na escola e que lhe dá a oportunidade de ser criativo e de brincar, com a mesma liberdade que têm as outras crianças. Vão construir uma ópera! No segundo acto, professores e alunos da turma de artes lançam mãos à obra, e envolvem-se num projecto escolar com todos os elementos essenciais de aprendizagem, onde não falta a investigação histórica que permite tecer uma narrativa do século XIX, com limpa-chaminés.
Para retratar a relação irreverente entre alunos e o ambiente de uma escola contemporânea, o encenador Paulo Matos acredita que é preciso utilizar uma linguagem actual, onde também cabe um vocabulário muitas vezes estranho aos adultos. Foi por isso que não abdicou de incluir nos diálogos da peça de teatro alguma linguagem vernacular, o calão. A pesquisa de expressões correntes entre os mais jovens fê-la com a ajuda dos seus filhos adolescentes, de 13 e 16 anos, e dos seus amigos, que criticam os aspectos que se afastam mais da realidade escolar. Paulo Matos salienta o bom resultado desta colaboração, através da reacção positiva das crianças seleccionadas para interpretar as personagens juvenis deste espectáculo: Na primeira reunião que tivemos, li com eles os textos e reconheceram-se imenso, diz o encenador com satisfação. No entanto, recusa qualquer aproximação à superficialidade e à forma de abordar as questões que caracterizam as séries de televisão dirigidas aos adolescentes: É preciso que daí nasça uma reflexão, o que não costuma acontecer nesse registo. Aqui estamos a desenhar uma alternativa, que é a escola construir um projecto artístico.

Na primeira parte do espectáculo, vemos o projecto escolar a nascer e a cada uma das personagens da primeira parte, alunos e professores, caberá um papel na ópera. Vamos assistir à organização e à estruturação desse projecto e depois a todas as fases de construção de um espectáculo: a criação de um libreto com os alunos (com o professor de Português), a composição da ópera (com o professor de Informática, que é o próprio maestro, Osvaldo Ferreira), a escolha dos solistas, a chegada dos músicos da orquestra, os primeiros ensaios musicais com o coro, a concepção dos cenários e dos figurinos (com a professora de Design), os primeiros desenhos e a sua construção. Há elementos de cenografia que serão finalizados em cena, revela o encenador. Até que finalmente tudo fica instalado e começa o verdadeiro espectáculo.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Outro Fim - Mais uma crítica



Jornal Expresso / Revista Actual
03/01/2009


Texto de Jorge Calado

"No fim é que está o começo


Estreou «Outro Fim», a ópera de Vieira Mendes e Pinho Vargas que marca o fim do ano musical.

TARDOU mas arrecadou. O pretexto duma boa ópera é um bom libreto, e este surgiu há cinco anos, quando a Culturgest encomendou a José Maria Vieira Mendes o texto para uma jovem ópera de câmara. Não pegou logo, mas há males que vêm por bem. O compositor certo - António Pinho Vargas (APV) - acabaria por o encontrar, num feliz caso de serendipidade. Outro Fim é um libreto inteligente, misterioso, económico e eminentemente cantável. Que um dramaturgo português, sem prática de ópera, seja capaz de produzir uma obra-prima é caso para embandeirar em arco. Quando, finalmente, se ouve tal texto a pulsar e a viver através duma música de altíssima qualidade e de uma encenação estimulante (embora, às vezes, problemática), estamos a assistir a um milagre.


De que trata Outro Fim ? Do desejo de sobrevivermos sendo outros, que é, afinal, o tema da própria ficção teatral. O autor desdobra-se nos seus personagens e permite ao intérprete fazer o mesmo. Eu sou vários, e nesta vontade de me unir ao outro acabo por ser um só. No caso de Outro Fim, a alteridade e ambivalência funcionam porque estão muito bem estruturadas dramaticamente, no espaço e no tempo. Cinco personagens (Mãe, Mulher, Homem, Irmão e Cunhada) em três lugares (casa da Mulher e Mãe, café e casa do Irmão e Cunhada), ao longo das quatro estações do ano. Um pentagrama social habita uma tríade espacial durante a quadratura do ano. Com o triângulo, o quadrado e o rectângulo é possível formar os cinco poliedros platónicos; 3, 4 e 5 (cuja soma é 12) são também a base pitagórica de muita boa música. A trama é simples: Homem e Mulher apaixonam-se. Irmão (do Homem) e Cunhada esperam o primeiro filho. Homem foge (motivos políticos?), mas envia cartas à Mulher através do Irmão. Irmão apaixona-se pela Mulher. Homem regressa. Irmão mata Homem e Cunhada (que é a sua mulher). A Mãe volta ao princípio e tudo pode recomeçar. Será que o fim será igual?


Como os personagens não têm nomes, o Irmão pode usurpar o lugar do Homem, tanto mais que a Mulher é escritora (de cartas, entre outras ficções). (Vieira Mendes reconhece a importância da cena de Persona, de Ingmar Bergman, em que os rostos de duas mulheres - personagens?, actrizes?, amantes do realizador? - se sobrepõem.) Quanto à Mãe, é a pitonisa das tragédias gregas. Procura decifrar as formas - nuvem, árvore ou rosto (contornos e sombras na caverna de Platão?) - e abre e fecha Outro Fim recitando as mesmas palavras: «sombra ou um rosto», o princípio de toda a ficção. Por outras palavras, no fim está o começo (o que não significa que o próximo fim seja o mesmo). Este é um libreto sobre a invenção literária e a criação artística em geral. Onde está a realidade? Como diz a Mãe, «A minha filha foge/para dentro de um caderno/vive numa página/mergulha no papel.» Quando tudo fica dito nesta estória acelerada, os personagens reduzem-se a um - o escritor (e compositor).


Pinho Vargas é um músico que cultiva a heteronímia. Além de ensaísta notável, é um homem do jazz e um clássico contemporâneo, com produção variada de grande qualidade (Outro Fim é a sua quarta ópera). O encontro dum dramaturgo e dum compositor atraídos pela alteridade funciona magnificamente. À divisão (ou multiplicação) dos eus segue-se a síntese, por exemplo, na união do casal: «Tu és meu.../Eu sou tu», cantam a Mulher e o Homem; ou as simetrias do «Ai, matei! Ai, morri!», do Homem. Pinho Vargas não segue rumos fundamentalistas; bebe onde melhor entende. Há uma grande liberdade composicional - até na divisão orquestral. As cenas no café adquirem um «beat» vital graças aos vários «combos» que APV traz para o palco (cordas, mas também clarinete/oboé, pianoforte e percussão). De resto, os seus objectos e «gestos» musicais são isomorfos dos ritmos do libreto, das suas rimas e repetições. O texto presta-se a ariosos (por exemplo, o «Todos os dias como criança», da Mulher, ou o «Perco a vista», do Homem, com violino «obbligato»), e até a um belíssimo, comovente dueto de amor entre o Homem e a Mulher (que ocorre no Outono). Tudo, na partitura, é bem pensado, até os interlúdios gestuais de notas líquidas no piano (o seu instrumento). A amplificação (discreta) justifica-se pela acústica da sala.


André E. Teodósio, responsável pela encenação e espaço cénico (em parceria com Vasco Araújo), abriu cinematicamente a montagem anulando as fronteiras entre cenas. A fluidez teatral é parte integrante da inevitabilidade dramática. Os intérpretes deambulam pelos bastidores (por exemplo, para fumar um cigarro ou beber um copo) ou improvisam uns passos de dança ao som contagiante da música. Assim se reforçam os vários eus. Há os personagens que, por acaso, são interpretados por actores que são pessoas que escolheram ser cantores (sem esquecer que, nesta ópera, os instrumentos são também «dramatis personae»). Todos pirandelliamente à procura dum sentido para Outro Fim. Há um simpático ambiente artesanal (a pistola que nem sequer é de papel, mas no papel), embora Teodósio ignore deliberadamente várias indicações do dramaturgo e introduza alguns postiços desnecessários. Gostei dos figurinos de Mariana de Sá Nogueira (repararam nos sapatos?).


O espectáculo contou com cinco excelentes cantores, bem dirigidos pelo encenador. Julgo que APV compôs a ópera para «estes» cantores - e isso nota-se. O facto de Larissa Savchenko (Mãe) acusar uma certa usura vocal não comprometeu a eficácia da representação. Luís Rodrigues (Homem), que é hoje um veterano das óperas de Pinho Vargas (criou o Édipo, a Tragédia de Saber, em 1996), foi primoroso, e a voz cheia e rica de matizes de Sónia Alcobaça (Mulher) operou maravilhas. Coube-lhes o momento alto da partitura - o encanto do dueto de amor, justamente abençoado pela Mãe com uma chuva de ouropel. Mário Alves e Madalena Boléo formaram um casal impecável. Prestação virtuosística de elementos da Orquestra Sinfónica Portuguesa. Apresentada em co-produção com o São Carlos, Outro Fim constitui uma homenagem ao saudoso Manuel José Vaz, primeiro presidente da Culturgest e antigo administrador do São Carlos, iniciador deste projecto.


A frustração maior é não conseguir ouvir novamente Outro Fim (assisti à segunda e última representação), até porque só quando cheguei ao fim do espectáculo é que entendi o seu início, 90 minutos antes. Sem partitura nem gravação à vista, fico-me com a fruição sensível duma obra-prima, sem possibilidade de confirmação (ou refutação) racional. Este é outro drama da criação contemporânea - aquilo a que APV chama produção «site-specific». É verdade que era assim que Händel trabalhava (o que lhe permitia reciclar o material), mas as circunstâncias eram outras. Será que a Casa da Música, o Teatro São João ou o CCB se aventuram a quebrar o enguiço do «site-specific»? Se a música fosse comisserável, com as concomitantes ligações perigosas entre arte e dinheiro - como acontece nas artes plásticas -, há muito que o problema estaria resolvido..."

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Outro Fim, Outro Princípio



Mulher (Sónia Alcobaça)

Homem (Luis Rodrigues)


Casa da Mãe - "Falta gente"

Posted by Picasa


Mais um projecto concluído. Um grande desafio para todos, ultrapassado com grande esforço e profissionalismo individuais, aliados ao enorme espírito de equipa gerado ao longo de um mês e meio de trabalho intenso. Mas é assim mesmo, os novos caminhos são sempre os mais difíceis, os mais dolorosos, e talvez por isso também os mais criativos. Independentemente das críticas e no meu caso em particular, não sendo uma experiência nova, visto que já tinha trabalhado com André Teodósio em "Metanoite", de João Madureira (Gulbenkian, 2007 ), foi, através de um processo de desconstrução, da ideia de narrador e de uma hiper-consciência do corpo e seu movimento, que apesar de exaustivo e complexo me levou a descobrir uma nova forma de estar em palco. Valorizar o momento como único e verdadeiro sem medo de usar a minha própria linguagem corporal. Sem gestos "redondos", "românticos" ou tomados como garantidos. Deitar por terra a quarta parede e incluir o público na acção. A partitura, o primeiro de todos os desafios. Papel de memorização difícil e grande exigência vocal, que, no entanto, me brindaria com alguns dos momentos mais belos da ópera. Claro que não posso deixar de agradecer a ajuda que obtive de cada um dos meus colegas, em todas as áreas. E, naturalmente, dar os parabéns a todos pelo resultado final.


Além das fotografias do ensaio pré-geral (ainda sem caracterização), deixo duas críticas.


"Nem só de música vive a ópera

As identidades "misturam-se, sobrepõem-se e atraem-se como o mercúrio", numa obra "trágica, romântica, desesperada", explica José Vieira Mendes, autor do libreto. São "as histórias de vida dos que, face a um quotidiano pouco exaltante, acabam por chegar às tragédias", diz António Pinho Vargas, autor da música.
O leque de vozes é composto por Larissa Savchenko, Sónia Alcobaça, Madalena Boléo, Luís Rodrigues e Mário Alves. A direcção musical está entregue a Cesário Costa.


Quando algum dos elementos que compõem o espectáculo falha o seu objectivo, este fica irremediavelmente comprometido. Foi o que aconteceu com a ópera "Outro Fim".


Nascida nos alvores do século XVII a partir do conceito de drama per musica, a ópera faz-se da soma de várias componentes artísticas. É da sua conjugação que nasce o essencial do seu fascínio enquanto um dos géneros mais determinantes da história da música. Sendo assim, quando algum dos elementos que compõem o espectáculo falha o seu objectivo, este fica irremediavelmente comprometido. Foi o que aconteceu com a ópera Outro Fim, uma encomenda da Culturgest a António Pinho Vargas, que trabalhou sobre um libreto de José Vieira Mendes, resultante de uma encomenda anterior da mesma instituição.


Do espectáculo estreado no passado fim-de-semana emergiu a música de um compositor que domina o seu métier e as convenções do teatro musical, adaptando-as ao seu estilo, e que nos últimos anos tem manifestado uma postura estética que se demarca deliberadamente das tendências que ainda têm subjacente a ideia do progresso em arte - leia-se a herança pós-serial e a escola francesa em torno do IRCAM (Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique). Mas a música de Pinho Vargas serviu um libreto que, apesar de algumas ideias potencialmente interessantes (como a troca de identidades ou a ficção dentro da ficção), nem sempre se revelou eficaz na escolha da linguagem mais adequada a uma situação de teatro musical e acabou por deixar visível apenas o lado mais convencional de uma trama assente na tragédia familiar. Mesmo assim a obra poderia até ter resultado, se o espaço cénico e a encenação concebida por André e. Teodósio (em parceria com Vasco Araújo) não lhe tivessem conferido o golpe fatal.


As intenções interpretativas do encenador que se podem ler no texto bastante pretensioso publicado no programa acabariam por dar origem a uma amálgama de referências que ofusca em vez de clarificar. Para funcionar, a ideia de colocar os três lugares da acção visíveis em simultâneo necessitava de mais espaço ou de delimitações mais claras (por exemplo em patamares), bem como de um uso mais criterioso da parte das personagens. Os cantores passam muitas vezes de uns espaços para os outros sem motivo aparente, tornando a acção confusa e a didascália do libreto é pouco respeitada. Uma direcção de actores algo errática torna personagens frequentemente pouco credíveis (a Mãe dominadora, que imaginaríamos numa casa sombria e que o libreto coloca quase sempre sentada na sua cadeira, circula por todo o lado; há despedidas supostamente dolorosas e momentos de tensão tratados com indiferença). Tudo isto decorre talvez da temerária ambição de André Teodósio em "dirigir os cantores de forma a obter personagens-que-não-são-personagens-mas-sim-evocações-da- escrita-sob-a-forma-de-personagens", como escreveu no programa, tendo em vista a ideia de que tudo o que vemos pode afinal ser um produto da imaginação da Mulher que escreve. Daí a simbologia das máscaras em tirinhas de papel ou do revólver que é um desenho nas largas folhas de um livro. Só que a concretização é ineficaz. Um espaço cénico plasticamente pouco atraente e figurinos pouco inspirados também não ajudam. O resultado para o público é um amontoado de referências algo à deriva, donde emergem, apesar de tudo, como nota positiva várias componentes da criação musical de Pinho Vargas e o desempenho profissional dos cantores e dos elementos da Orquestra Sinfónica Portuguesa (em particular do pequeno grupo que actuou em palco nas cenas no café), sob a direcção de Cesário Costa.


No plano vocal destaca-se a prestação de Sónia Alcobaça (Mulher), que teve de fazer frente a uma escrita de grandes exigências e forte insistência no registo agudo (que a soprano atinge com facilidade mas que se torna demasiado incisivo em comparação com as qualidades tímbricas do seu registo médio) e de Luís Rodrigues (Homem), que conseguiu um bom equilíbrio entre a dimensão vocal e teatral. Larissa Savchenko (Mãe) e Mário Alves (Irmão) cumpriram no essencial as suas funções, tendo em vista que se trata de uma estreia e não de uma obra de repertório objecto de um amadurecimento anterior. Dessa contingência se ressentiu ainda mais Madalena Boléo (Cunhada), que entrou mais tarde para a produção em substituição de outra cantora.
Enquanto a encenação age por vezes contra o texto e a música, Pinho Vargas preocupou-se em seguir de perto as principais linhas dramatúrgicas do libreto, sublinhando os pontos de tensão dramática (ainda que por vezes de forma demasiado enfática), oscilando entre a acção exterior (por exemplo através da música do café, com laivos jazzísticos e um sabor stravinskiano) e a instrospecção das personagens, com alguns momentos muito belos, como a primeira cena da 4ª parte (Primavera), em que a Mulher espera em vão a chegada de novas cartas e a textura instrumental se torna mais rarefeita e aposta nas sonoridades cristalinas do piano e da percussão. Nota-se o domínio da gestão dos gestos musicais e dos elementos que jogam com a memória do ouvinte, contrastes múltiplos e uma sensibilidade particular para a orquestração, mas também um certo conformismo em termos de linguagem musical. Criada com a consciência da condição site-specific da ópera contemporânea (ver entrevista no Ípsilon de 19 de Dezembro), Outro Fim merecia uma segunda oportunidade de avaliação por via de uma produção que tirasse melhor partido das suas virtudes em vez de as anular."


Cristina Fernandes
PUBLICO, 24 Dezembro, 2008

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(...) Serpenteando entre todas estas "dissonâncias" e em comparação com as tensões não resolvidas que geravam, a música de Pinho Vargas - a que escreve para os instrumentos, a que coloca nas vozes - é harmoniosa e consonante, mesmo quando angulosa (por vezes) e dissonante (fugazmente). Pois só ela logra alcançar na medida exacta o equilíbrio com personagens e seu carácter, com as palavras que sustenta, as situações que emoldura. Só ela fala claro.Ainda bem que foi tão bem tocada (24 elementos da Sinfónica Portuguesa) e cantada, aqui pelas cinco personagens criadas pelo libretista: Larissa Savchenko (Mãe), Sónia Alcobaça (Mulher), Madalena Boléo, (Cunhada), Luís Rodrigues (Homem) e Mário Alves (Irmão). Unindo as linhas (cordas ou filigrana) urdidas na partitura, brilhou a precisão do gesto de Cesário Costa
Bernardo Mariano
DN, 23 Dezembro, 2009

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Pinho Vargas e Vieira Mendes à procura de "Outro Fim"

Luis Rodrigues (Homem) e Madalena Boléo (Cunhada)


António Pinho Vargas estreia sábado uma nova ópera, com libreto de José Maria Vieira Mendes. Ana Dias Ferreira falou com os dois.

A história começa no Verão e acaba no Verão, uma volta de 360 graus através das quatro estações. Um ano de acção concentrado numa hora de ópera, com cinco cantores/personagens, 23 instrumentos e três espaços cénicos num só palco, visíveis em simultâneo. Pelo meio, um crime. Como se esta fosse uma ópera clássica, trágica, mas “em miniatura”, condensada. Uma ópera cuja história José Maria Vieira Mendes imaginou, e à qual o pianista e compositor António Pinho Vargas deu música. A estreia acontece este fim-de-semana, às 21.30, na Culturgest. A encenação é de André e. Teodósio.

Quando Pinho Vargas leu Outro Fim, o libreto encomendado pela Culturgest a Vieira Mendes em 2003, estava imerso na composição da sua terceira ópera, A Little Madness in the Spring. Ainda assim, à primeira leitura foi evidente: “Este pareceu-me o libreto mais conforme a uma ópera tradicional”, diz o compositor. “Trata-se de um drama familiar, e a clareza do texto, a plasticidade e a densidade psicológica das cinco personagens são muito adequados ao canto e à vocalidade.”

Como sempre, António Pinho Vargas começou pelo texto. Leu, releu, interpretou. E como tinha de começar a compor por algum lado, começou pela Mãe (no libreto é mesmo assim, as personagens não têm nome, são a Mulher, o Homem, o Irmão, a Cunhada e a Mãe). “Sendo uma ópera, a música existe em função das personagens”, diz o compositor, “e a primeira coisa que fiz foi tentar captar a musicalidade mais adequada à figura da mãe, que é uma personagem isolada, que não sai e quase não interfere com as outras personagens, mas é central”.

A segunda fase, continua Pinho Vargas, “foi compor lato sensu, tendo em conta o texto e a evolução das personagens”. Uma evolução “complexa”, considera o compositor, dando como exemplo a relação entre os dois irmãos: “No início da peça, um deles acabou de sair da prisão, não quer trabalhar, mas no fim da ópera apaixona-se e é o outro irmão que começa a beber e que está revoltado. Há uma troca de personagens muito interessante.”

Isso, essa troca de identidades, foi ideia de José Maria Vieira Mendes, que confessa que antes de escrever este libreto deu por si com a memória de uma cena do filme Persona, de Ingmar Bergman, em que os rostos de Liv Ullman e Bibi Andersson se sobrepõem.

Mas pensar a questão do outro não era tudo: “Tinha vontade de escrever um libreto condizente com um imaginário romântico de um espectador esporádico de espectáculos de ópera”, diz Vieira Mendes. “A morte do herói, o amor desencontrado, o suicídio ou homicídio, o desenlace trágico... Queria jogar com essa tradição clássica ao género Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Amor de Perdição ou West Side Story, e trazê-la para a pequena dimensão da ópera de câmara.” Espremendo, concentrando, fazendo a tal ópera trágica “em miniatura”. E assim dificultando a tarefa ao encenador.

André Teodósio, que já trabalhara com Vieira Mendes em Super-Gorila e Avarento ou a última festa, encontra no escritor um “prazer sádico em dificultar a realização da sua própria obra.” Como escreve o encenador nas notas ao programa, é como se o escritor acordasse e se pusesse a pensar em coisas difíceis de colocar em cena, como “o cair da noite, morrer e dar à luz, estações que mudam”. Pinho Vargas não ajudou muito. “Decidiu jogar o mesmo jogo”, diz Teodósio. “Compôs uma obra musical que joga claramente com a História da Música, com todos os géneros musicais, uma ópera que dilata e comprime, de uma complexidade técnica exímia.” E ainda tirou alguns músicos do tradicional fosso de orquestra e colocou-os em cima do palco, ao piano, nas cenas que se passam no café (as outras passam-se na casa do Irmão e da Cunhada e na casa da Mulher e da Mãe, mas está tudo à vista desarmada, lado a lado).

O título, Outro Fim, esse é “roubado” a um poema de Antero de Quental. Explica Vieira Mendes: “Em Outro Fim existe a ideia do tempo e do mundo redondo, com a passagem das estações do ano, dar a volta ao ano... E chega-se ao fim com a ideia de que se pode reiniciar. Mas este reinício, como está implícito no título, não seria para fazer o mesmo mas sim outra coisa”, continua o autor. “No fundo é a história da literatura. A história da linguagem. A história das artes: andar à volta das mesmas coisas mas sempre à procura de outras formas. À procura de um outro fim, mas nunca do fim definitivo.”


in timeout.sapo.pt

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Recorte de Imprensa


I Pagliacci - Nedda e Silvio (Sónia Alcobaça e Jorge Martins)





V Festival de Ópera de Óbidos terminou no sábado

Data: 24 de Agosto de 2008
Fonte: Oeste Online

Terminou ontem, dia 23, o V Festival de Ópera de Óbidos, no magnífico cenário da Lagoa de Óbidos, com a interpretação das melhores árias de ópera, na estreia em Portugal da cantora Giorgia Fumanti e fogo-de-artifício a partir do “espelho de água”. Perto de duas mil pessoas encheram por completo o recinto e no final o público aplaudiu de pé. A Grande Gala de Ópera teve a participação de grandes vozes, nomeadamente de Giorgia Fumanti, que actuou recentemente nos Jogos Olímpicos de Pequim, de João Merino, Carlos Guilherme, Sónia Alcobaça, Jorge Martins, Mário Alves, Carla Caramujo, Giovanni Manfrin, Larissa Savchenco, João Oliveira, Luís Rodrigues e Ana Barros. O V Festival de Ópera de Óbidos contou, este ano, com a realização de vários espectáculos em diversos locais, “tirando partido do património construído e natural do concelho de Óbidos”, explicou o presidente da autarquia, Telmo Faria. “Há cinco anos que apostamos na apresentação de grandes óperas, as mais queridas do público, com encenações tradicionais que as pessoas entendem e gostam. Esta é a chave do sucesso deste festival que já tem o seu público fidelizado e que mostra que Óbidos prefere a qualidade como referência da sua oferta cultural”, sublinha o autarca, acrescentando que “fazer o género cultural mais complexo do mundo, que é a Ópera, assumindo sempre o risco elevado de o fazer ao ar livre, mostra como Óbidos é inovação e criatividade”. La Gran Via, La Serena, com Teresa Salgueiro & Lusitânia Ensemble, Árias de Dança, Madama Batterfly, Pagliacci, Cavalleria Rusticana, Tosca e a Grande Gala de Ópera fizeram o programa deste ano, dedicado aos 150 anos do nascimento de Giacomo Puccini.