

Espanhóis e franceses por Sónia Alcobaça
Com Sónia Alcobaça (Soprano) e João Paulo Santos (Piano)
Obras de Albéniz, Falla, Turina, Granados, Halffter, Durey, Milhaud, Honegger, Tailleferre e Satie.
Para o seu primeiro recital a solo na Gulbenkian, no âmbito do ciclo Novos Intérpretes, a soprano Sónia Alcobaça escolheu, com o pianista João Paulo Santos, um interessante programa, que se centra em compositores franceses e espanhóis, a maior parte deles activos no período entre as duas Guerras Mundiais.
Canções escritas pelos membros do chamado Grupo dos Seis (nome que lhe foi atribuído pelo crítico Henri Collet em 1923) - Durey, Milhaud, Auric, Honegger, Poulenc, Tailleferre - e do seu mentor Erik Satie combinam-se com páginas de Albéniz, Granados, Falla, Turina e Halffter. Se o exotismo da música espanhola fascinou os compositores franceses do princípio do século XX, o ambiente parisiense e as correntes do Impressionismo e do Neoclassicismo francês foram igualmente marcantes para os compositores ibéricos.
Sónia Alcobaça tem-se distinguido entre a nova geração de cantores portugueses pelo seu timbre cintilante e por óptimas qualidades musicais. Estudou na Escola Superior de Música de Lisboa com Joana Silva, trabalhando actualmente com Elena Dumitrescu-Nentwig. Já interpretou vários papéis do repertório lírico em obras de Donizetti, Bizet, Britten, Milhaud, Honegger, Falla e Pinho Vargas) e tem actuado com vários agrupamentos, entre os quais a Orquestra Sinfónica Portuguesa, a Orquestra do Algarve, a Orchestrutópica e o Ensemble Barroco do Chiado.
Cristina Fernandes
Público, 06 de Fevereiro, 2009



Homem (Luis Rodrigues)
Quando Pinho Vargas leu Outro Fim, o libreto encomendado pela Culturgest a Vieira Mendes em 2003, estava imerso na composição da sua terceira ópera, A Little Madness in the Spring. Ainda assim, à primeira leitura foi evidente: “Este pareceu-me o libreto mais conforme a uma ópera tradicional”, diz o compositor. “Trata-se de um drama familiar, e a clareza do texto, a plasticidade e a densidade psicológica das cinco personagens são muito adequados ao canto e à vocalidade.”
Como sempre, António Pinho Vargas começou pelo texto. Leu, releu, interpretou. E como tinha de começar a compor por algum lado, começou pela Mãe (no libreto é mesmo assim, as personagens não têm nome, são a Mulher, o Homem, o Irmão, a Cunhada e a Mãe). “Sendo uma ópera, a música existe em função das personagens”, diz o compositor, “e a primeira coisa que fiz foi tentar captar a musicalidade mais adequada à figura da mãe, que é uma personagem isolada, que não sai e quase não interfere com as outras personagens, mas é central”.
A segunda fase, continua Pinho Vargas, “foi compor lato sensu, tendo em conta o texto e a evolução das personagens”. Uma evolução “complexa”, considera o compositor, dando como exemplo a relação entre os dois irmãos: “No início da peça, um deles acabou de sair da prisão, não quer trabalhar, mas no fim da ópera apaixona-se e é o outro irmão que começa a beber e que está revoltado. Há uma troca de personagens muito interessante.”
Isso, essa troca de identidades, foi ideia de José Maria Vieira Mendes, que confessa que antes de escrever este libreto deu por si com a memória de uma cena do filme Persona, de Ingmar Bergman, em que os rostos de Liv Ullman e Bibi Andersson se sobrepõem.
Mas pensar a questão do outro não era tudo: “Tinha vontade de escrever um libreto condizente com um imaginário romântico de um espectador esporádico de espectáculos de ópera”, diz Vieira Mendes. “A morte do herói, o amor desencontrado, o suicídio ou homicídio, o desenlace trágico... Queria jogar com essa tradição clássica ao género Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Amor de Perdição ou West Side Story, e trazê-la para a pequena dimensão da ópera de câmara.” Espremendo, concentrando, fazendo a tal ópera trágica “em miniatura”. E assim dificultando a tarefa ao encenador.
André Teodósio, que já trabalhara com Vieira Mendes em Super-Gorila e Avarento ou a última festa, encontra no escritor um “prazer sádico em dificultar a realização da sua própria obra.” Como escreve o encenador nas notas ao programa, é como se o escritor acordasse e se pusesse a pensar em coisas difíceis de colocar em cena, como “o cair da noite, morrer e dar à luz, estações que mudam”. Pinho Vargas não ajudou muito. “Decidiu jogar o mesmo jogo”, diz Teodósio. “Compôs uma obra musical que joga claramente com a História da Música, com todos os géneros musicais, uma ópera que dilata e comprime, de uma complexidade técnica exímia.” E ainda tirou alguns músicos do tradicional fosso de orquestra e colocou-os em cima do palco, ao piano, nas cenas que se passam no café (as outras passam-se na casa do Irmão e da Cunhada e na casa da Mulher e da Mãe, mas está tudo à vista desarmada, lado a lado).
O título, Outro Fim, esse é “roubado” a um poema de Antero de Quental. Explica Vieira Mendes: “Em Outro Fim existe a ideia do tempo e do mundo redondo, com a passagem das estações do ano, dar a volta ao ano... E chega-se ao fim com a ideia de que se pode reiniciar. Mas este reinício, como está implícito no título, não seria para fazer o mesmo mas sim outra coisa”, continua o autor. “No fundo é a história da literatura. A história da linguagem. A história das artes: andar à volta das mesmas coisas mas sempre à procura de outras formas. À procura de um outro fim, mas nunca do fim definitivo.”
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