quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Recital na Gulbenkian










Para quem não pôde estar presente deixo alguns momentos gravados pela Antena 2 para futura transmissão.



Recital no Auditório 2 da FCG


Entre França e Espanha

Sónia Alcobaça apresenta-se no ciclo Novos Intérpretes com mélodie e canción.

Terça, 10 Fev 2009, 19:00 - Auditório Dois

A mélodie nasceu da junção de dois elementos fundamentais. Por um lado, pode ser vista como a consequência do impacto que os Lieder de Schubert tiveram sobre a prática vocal francesa, que até à década de 30 do século XIX é dominada pela romance. Por outro lado, desenvolveu-se acompanhando as novidades estilísticas e estéticas que foram sendo introduzidas pelos poetas franceses ao longo do século XIX e durante as primeiras décadas do século XX.Género artístico subtil e sofisticado como nenhum outro, a mélodie teve, no momento entre as duas Guerras, um dos seus períodos áureos. Paralelamente, enquanto Paris guardou o seu estatuto de capital cultural europeia, influenciou também a música vocal de compositores cuja origem não era francesa, mas que fizeram daquela a sua cidade de eleição. Ambos os elementos reflectem-se no fascinante programa que será interpretado neste recital.O concerto mostra, através das obras escolhidas, a variedade dos universos poéticos e musicais que a mélodie, como género, pode chegar a expressar, assim como a sua frutífera influência na canción lírica de cinco compositores que, apesar de serem espanhóis, sempre mantiveram ligações com a cultura francesa. A acertada selecção, que inclui composições de Falla, Granados, Honneger, Milhaud, Poulenc e, ainda, três canções de café-concerto da autoria de Satie, foi especialmente concebida para valorizar a magnífica voz e o talento dramático da jovem soprano Sónia Alcobaça, que se apresentará no âmbito do Ciclo Novos Intérpretes da Temporada Gulbenkian de Música, e a sensibilidade a que nos tem acostumado o pianista João Paulo Santos.

Serviço de Música da FCG
02 Fevereiro 2009

_______________________________


Espanhóis e franceses por Sónia Alcobaça

Com Sónia Alcobaça (Soprano) e João Paulo Santos (Piano)


Obras de Albéniz, Falla, Turina, Granados, Halffter, Durey, Milhaud, Honegger, Tailleferre e Satie.

Para o seu primeiro recital a solo na Gulbenkian, no âmbito do ciclo Novos Intérpretes, a soprano Sónia Alcobaça escolheu, com o pianista João Paulo Santos, um interessante programa, que se centra em compositores franceses e espanhóis, a maior parte deles activos no período entre as duas Guerras Mundiais.

Canções escritas pelos membros do chamado Grupo dos Seis (nome que lhe foi atribuído pelo crítico Henri Collet em 1923) - Durey, Milhaud, Auric, Honegger, Poulenc, Tailleferre - e do seu mentor Erik Satie combinam-se com páginas de Albéniz, Granados, Falla, Turina e Halffter. Se o exotismo da música espanhola fascinou os compositores franceses do princípio do século XX, o ambiente parisiense e as correntes do Impressionismo e do Neoclassicismo francês foram igualmente marcantes para os compositores ibéricos.

Sónia Alcobaça tem-se distinguido entre a nova geração de cantores portugueses pelo seu timbre cintilante e por óptimas qualidades musicais. Estudou na Escola Superior de Música de Lisboa com Joana Silva, trabalhando actualmente com Elena Dumitrescu-Nentwig. Já interpretou vários papéis do repertório lírico em obras de Donizetti, Bizet, Britten, Milhaud, Honegger, Falla e Pinho Vargas) e tem actuado com vários agrupamentos, entre os quais a Orquestra Sinfónica Portuguesa, a Orquestra do Algarve, a Orchestrutópica e o Ensemble Barroco do Chiado.

Cristina Fernandes

Público, 06 de Fevereiro, 2009

sábado, 3 de janeiro de 2009

Outro Fim - Mais uma crítica



Jornal Expresso / Revista Actual
03/01/2009


Texto de Jorge Calado

"No fim é que está o começo


Estreou «Outro Fim», a ópera de Vieira Mendes e Pinho Vargas que marca o fim do ano musical.

TARDOU mas arrecadou. O pretexto duma boa ópera é um bom libreto, e este surgiu há cinco anos, quando a Culturgest encomendou a José Maria Vieira Mendes o texto para uma jovem ópera de câmara. Não pegou logo, mas há males que vêm por bem. O compositor certo - António Pinho Vargas (APV) - acabaria por o encontrar, num feliz caso de serendipidade. Outro Fim é um libreto inteligente, misterioso, económico e eminentemente cantável. Que um dramaturgo português, sem prática de ópera, seja capaz de produzir uma obra-prima é caso para embandeirar em arco. Quando, finalmente, se ouve tal texto a pulsar e a viver através duma música de altíssima qualidade e de uma encenação estimulante (embora, às vezes, problemática), estamos a assistir a um milagre.


De que trata Outro Fim ? Do desejo de sobrevivermos sendo outros, que é, afinal, o tema da própria ficção teatral. O autor desdobra-se nos seus personagens e permite ao intérprete fazer o mesmo. Eu sou vários, e nesta vontade de me unir ao outro acabo por ser um só. No caso de Outro Fim, a alteridade e ambivalência funcionam porque estão muito bem estruturadas dramaticamente, no espaço e no tempo. Cinco personagens (Mãe, Mulher, Homem, Irmão e Cunhada) em três lugares (casa da Mulher e Mãe, café e casa do Irmão e Cunhada), ao longo das quatro estações do ano. Um pentagrama social habita uma tríade espacial durante a quadratura do ano. Com o triângulo, o quadrado e o rectângulo é possível formar os cinco poliedros platónicos; 3, 4 e 5 (cuja soma é 12) são também a base pitagórica de muita boa música. A trama é simples: Homem e Mulher apaixonam-se. Irmão (do Homem) e Cunhada esperam o primeiro filho. Homem foge (motivos políticos?), mas envia cartas à Mulher através do Irmão. Irmão apaixona-se pela Mulher. Homem regressa. Irmão mata Homem e Cunhada (que é a sua mulher). A Mãe volta ao princípio e tudo pode recomeçar. Será que o fim será igual?


Como os personagens não têm nomes, o Irmão pode usurpar o lugar do Homem, tanto mais que a Mulher é escritora (de cartas, entre outras ficções). (Vieira Mendes reconhece a importância da cena de Persona, de Ingmar Bergman, em que os rostos de duas mulheres - personagens?, actrizes?, amantes do realizador? - se sobrepõem.) Quanto à Mãe, é a pitonisa das tragédias gregas. Procura decifrar as formas - nuvem, árvore ou rosto (contornos e sombras na caverna de Platão?) - e abre e fecha Outro Fim recitando as mesmas palavras: «sombra ou um rosto», o princípio de toda a ficção. Por outras palavras, no fim está o começo (o que não significa que o próximo fim seja o mesmo). Este é um libreto sobre a invenção literária e a criação artística em geral. Onde está a realidade? Como diz a Mãe, «A minha filha foge/para dentro de um caderno/vive numa página/mergulha no papel.» Quando tudo fica dito nesta estória acelerada, os personagens reduzem-se a um - o escritor (e compositor).


Pinho Vargas é um músico que cultiva a heteronímia. Além de ensaísta notável, é um homem do jazz e um clássico contemporâneo, com produção variada de grande qualidade (Outro Fim é a sua quarta ópera). O encontro dum dramaturgo e dum compositor atraídos pela alteridade funciona magnificamente. À divisão (ou multiplicação) dos eus segue-se a síntese, por exemplo, na união do casal: «Tu és meu.../Eu sou tu», cantam a Mulher e o Homem; ou as simetrias do «Ai, matei! Ai, morri!», do Homem. Pinho Vargas não segue rumos fundamentalistas; bebe onde melhor entende. Há uma grande liberdade composicional - até na divisão orquestral. As cenas no café adquirem um «beat» vital graças aos vários «combos» que APV traz para o palco (cordas, mas também clarinete/oboé, pianoforte e percussão). De resto, os seus objectos e «gestos» musicais são isomorfos dos ritmos do libreto, das suas rimas e repetições. O texto presta-se a ariosos (por exemplo, o «Todos os dias como criança», da Mulher, ou o «Perco a vista», do Homem, com violino «obbligato»), e até a um belíssimo, comovente dueto de amor entre o Homem e a Mulher (que ocorre no Outono). Tudo, na partitura, é bem pensado, até os interlúdios gestuais de notas líquidas no piano (o seu instrumento). A amplificação (discreta) justifica-se pela acústica da sala.


André E. Teodósio, responsável pela encenação e espaço cénico (em parceria com Vasco Araújo), abriu cinematicamente a montagem anulando as fronteiras entre cenas. A fluidez teatral é parte integrante da inevitabilidade dramática. Os intérpretes deambulam pelos bastidores (por exemplo, para fumar um cigarro ou beber um copo) ou improvisam uns passos de dança ao som contagiante da música. Assim se reforçam os vários eus. Há os personagens que, por acaso, são interpretados por actores que são pessoas que escolheram ser cantores (sem esquecer que, nesta ópera, os instrumentos são também «dramatis personae»). Todos pirandelliamente à procura dum sentido para Outro Fim. Há um simpático ambiente artesanal (a pistola que nem sequer é de papel, mas no papel), embora Teodósio ignore deliberadamente várias indicações do dramaturgo e introduza alguns postiços desnecessários. Gostei dos figurinos de Mariana de Sá Nogueira (repararam nos sapatos?).


O espectáculo contou com cinco excelentes cantores, bem dirigidos pelo encenador. Julgo que APV compôs a ópera para «estes» cantores - e isso nota-se. O facto de Larissa Savchenko (Mãe) acusar uma certa usura vocal não comprometeu a eficácia da representação. Luís Rodrigues (Homem), que é hoje um veterano das óperas de Pinho Vargas (criou o Édipo, a Tragédia de Saber, em 1996), foi primoroso, e a voz cheia e rica de matizes de Sónia Alcobaça (Mulher) operou maravilhas. Coube-lhes o momento alto da partitura - o encanto do dueto de amor, justamente abençoado pela Mãe com uma chuva de ouropel. Mário Alves e Madalena Boléo formaram um casal impecável. Prestação virtuosística de elementos da Orquestra Sinfónica Portuguesa. Apresentada em co-produção com o São Carlos, Outro Fim constitui uma homenagem ao saudoso Manuel José Vaz, primeiro presidente da Culturgest e antigo administrador do São Carlos, iniciador deste projecto.


A frustração maior é não conseguir ouvir novamente Outro Fim (assisti à segunda e última representação), até porque só quando cheguei ao fim do espectáculo é que entendi o seu início, 90 minutos antes. Sem partitura nem gravação à vista, fico-me com a fruição sensível duma obra-prima, sem possibilidade de confirmação (ou refutação) racional. Este é outro drama da criação contemporânea - aquilo a que APV chama produção «site-specific». É verdade que era assim que Händel trabalhava (o que lhe permitia reciclar o material), mas as circunstâncias eram outras. Será que a Casa da Música, o Teatro São João ou o CCB se aventuram a quebrar o enguiço do «site-specific»? Se a música fosse comisserável, com as concomitantes ligações perigosas entre arte e dinheiro - como acontece nas artes plásticas -, há muito que o problema estaria resolvido..."

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Portfólio: La voix humaine / Poulenc


VIDEO








Elle: Sónia Alcobaça
Piano: Helder Marques

Fundação Calouste Gulbenkian / CAM - 2007


Encenação: José Lourenço

Direcção Musical: Cesário Costa


Feliz 2009

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Portfólio: Exposição Amadeo de Souza-Cardoso






Musa
Fundação Calouste Gulbenkian - 2006
Concertos (Im)previstos "Amadeo Souza-Cardoso"
Piano: José Manuel Brandão
Direcção Cénica: Margarida Bettencourt
Figurinos: Helena Medeiros
Caracterização: Jorge Bragada

Portfólio: As Bodas de Figaro / Mozart

Condessa (Sónia Alcobaça) / Conde (Mário Redondo) / Susana (Lara Martins)



Condessa d'Almaviva



CAE Figueira da Foz / Teatro Aveirense / Centro Cultural de Guimarães - 2006
Encenação: Maria Emília Correia
Direcção Musical: Cesário Costa

Orquestra Metropolitana de Lisboa


Portfólio: Le Pauvre Matelot / Darius Milhaud

Femme (Sónia Alcobaça) Ami (João Merino)

Femme / Père (Pedro Correia)

Femme / Père

Femme / Matelot, son mari (José Lourenço)

Femme / Ami

Assassínio: a mulher mata, sem saber(?) o seu próprio marido.

Femme

Centro de Arte Moderna (Lisboa) 2004
Encenação: Paulo Matos
Direcção Musical: João Paulo Santos
Piano: Joana David

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Outro Fim, Outro Princípio



Mulher (Sónia Alcobaça)

Homem (Luis Rodrigues)


Casa da Mãe - "Falta gente"

Posted by Picasa


Mais um projecto concluído. Um grande desafio para todos, ultrapassado com grande esforço e profissionalismo individuais, aliados ao enorme espírito de equipa gerado ao longo de um mês e meio de trabalho intenso. Mas é assim mesmo, os novos caminhos são sempre os mais difíceis, os mais dolorosos, e talvez por isso também os mais criativos. Independentemente das críticas e no meu caso em particular, não sendo uma experiência nova, visto que já tinha trabalhado com André Teodósio em "Metanoite", de João Madureira (Gulbenkian, 2007 ), foi, através de um processo de desconstrução, da ideia de narrador e de uma hiper-consciência do corpo e seu movimento, que apesar de exaustivo e complexo me levou a descobrir uma nova forma de estar em palco. Valorizar o momento como único e verdadeiro sem medo de usar a minha própria linguagem corporal. Sem gestos "redondos", "românticos" ou tomados como garantidos. Deitar por terra a quarta parede e incluir o público na acção. A partitura, o primeiro de todos os desafios. Papel de memorização difícil e grande exigência vocal, que, no entanto, me brindaria com alguns dos momentos mais belos da ópera. Claro que não posso deixar de agradecer a ajuda que obtive de cada um dos meus colegas, em todas as áreas. E, naturalmente, dar os parabéns a todos pelo resultado final.


Além das fotografias do ensaio pré-geral (ainda sem caracterização), deixo duas críticas.


"Nem só de música vive a ópera

As identidades "misturam-se, sobrepõem-se e atraem-se como o mercúrio", numa obra "trágica, romântica, desesperada", explica José Vieira Mendes, autor do libreto. São "as histórias de vida dos que, face a um quotidiano pouco exaltante, acabam por chegar às tragédias", diz António Pinho Vargas, autor da música.
O leque de vozes é composto por Larissa Savchenko, Sónia Alcobaça, Madalena Boléo, Luís Rodrigues e Mário Alves. A direcção musical está entregue a Cesário Costa.


Quando algum dos elementos que compõem o espectáculo falha o seu objectivo, este fica irremediavelmente comprometido. Foi o que aconteceu com a ópera "Outro Fim".


Nascida nos alvores do século XVII a partir do conceito de drama per musica, a ópera faz-se da soma de várias componentes artísticas. É da sua conjugação que nasce o essencial do seu fascínio enquanto um dos géneros mais determinantes da história da música. Sendo assim, quando algum dos elementos que compõem o espectáculo falha o seu objectivo, este fica irremediavelmente comprometido. Foi o que aconteceu com a ópera Outro Fim, uma encomenda da Culturgest a António Pinho Vargas, que trabalhou sobre um libreto de José Vieira Mendes, resultante de uma encomenda anterior da mesma instituição.


Do espectáculo estreado no passado fim-de-semana emergiu a música de um compositor que domina o seu métier e as convenções do teatro musical, adaptando-as ao seu estilo, e que nos últimos anos tem manifestado uma postura estética que se demarca deliberadamente das tendências que ainda têm subjacente a ideia do progresso em arte - leia-se a herança pós-serial e a escola francesa em torno do IRCAM (Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique). Mas a música de Pinho Vargas serviu um libreto que, apesar de algumas ideias potencialmente interessantes (como a troca de identidades ou a ficção dentro da ficção), nem sempre se revelou eficaz na escolha da linguagem mais adequada a uma situação de teatro musical e acabou por deixar visível apenas o lado mais convencional de uma trama assente na tragédia familiar. Mesmo assim a obra poderia até ter resultado, se o espaço cénico e a encenação concebida por André e. Teodósio (em parceria com Vasco Araújo) não lhe tivessem conferido o golpe fatal.


As intenções interpretativas do encenador que se podem ler no texto bastante pretensioso publicado no programa acabariam por dar origem a uma amálgama de referências que ofusca em vez de clarificar. Para funcionar, a ideia de colocar os três lugares da acção visíveis em simultâneo necessitava de mais espaço ou de delimitações mais claras (por exemplo em patamares), bem como de um uso mais criterioso da parte das personagens. Os cantores passam muitas vezes de uns espaços para os outros sem motivo aparente, tornando a acção confusa e a didascália do libreto é pouco respeitada. Uma direcção de actores algo errática torna personagens frequentemente pouco credíveis (a Mãe dominadora, que imaginaríamos numa casa sombria e que o libreto coloca quase sempre sentada na sua cadeira, circula por todo o lado; há despedidas supostamente dolorosas e momentos de tensão tratados com indiferença). Tudo isto decorre talvez da temerária ambição de André Teodósio em "dirigir os cantores de forma a obter personagens-que-não-são-personagens-mas-sim-evocações-da- escrita-sob-a-forma-de-personagens", como escreveu no programa, tendo em vista a ideia de que tudo o que vemos pode afinal ser um produto da imaginação da Mulher que escreve. Daí a simbologia das máscaras em tirinhas de papel ou do revólver que é um desenho nas largas folhas de um livro. Só que a concretização é ineficaz. Um espaço cénico plasticamente pouco atraente e figurinos pouco inspirados também não ajudam. O resultado para o público é um amontoado de referências algo à deriva, donde emergem, apesar de tudo, como nota positiva várias componentes da criação musical de Pinho Vargas e o desempenho profissional dos cantores e dos elementos da Orquestra Sinfónica Portuguesa (em particular do pequeno grupo que actuou em palco nas cenas no café), sob a direcção de Cesário Costa.


No plano vocal destaca-se a prestação de Sónia Alcobaça (Mulher), que teve de fazer frente a uma escrita de grandes exigências e forte insistência no registo agudo (que a soprano atinge com facilidade mas que se torna demasiado incisivo em comparação com as qualidades tímbricas do seu registo médio) e de Luís Rodrigues (Homem), que conseguiu um bom equilíbrio entre a dimensão vocal e teatral. Larissa Savchenko (Mãe) e Mário Alves (Irmão) cumpriram no essencial as suas funções, tendo em vista que se trata de uma estreia e não de uma obra de repertório objecto de um amadurecimento anterior. Dessa contingência se ressentiu ainda mais Madalena Boléo (Cunhada), que entrou mais tarde para a produção em substituição de outra cantora.
Enquanto a encenação age por vezes contra o texto e a música, Pinho Vargas preocupou-se em seguir de perto as principais linhas dramatúrgicas do libreto, sublinhando os pontos de tensão dramática (ainda que por vezes de forma demasiado enfática), oscilando entre a acção exterior (por exemplo através da música do café, com laivos jazzísticos e um sabor stravinskiano) e a instrospecção das personagens, com alguns momentos muito belos, como a primeira cena da 4ª parte (Primavera), em que a Mulher espera em vão a chegada de novas cartas e a textura instrumental se torna mais rarefeita e aposta nas sonoridades cristalinas do piano e da percussão. Nota-se o domínio da gestão dos gestos musicais e dos elementos que jogam com a memória do ouvinte, contrastes múltiplos e uma sensibilidade particular para a orquestração, mas também um certo conformismo em termos de linguagem musical. Criada com a consciência da condição site-specific da ópera contemporânea (ver entrevista no Ípsilon de 19 de Dezembro), Outro Fim merecia uma segunda oportunidade de avaliação por via de uma produção que tirasse melhor partido das suas virtudes em vez de as anular."


Cristina Fernandes
PUBLICO, 24 Dezembro, 2008

________________________________________________

(...) Serpenteando entre todas estas "dissonâncias" e em comparação com as tensões não resolvidas que geravam, a música de Pinho Vargas - a que escreve para os instrumentos, a que coloca nas vozes - é harmoniosa e consonante, mesmo quando angulosa (por vezes) e dissonante (fugazmente). Pois só ela logra alcançar na medida exacta o equilíbrio com personagens e seu carácter, com as palavras que sustenta, as situações que emoldura. Só ela fala claro.Ainda bem que foi tão bem tocada (24 elementos da Sinfónica Portuguesa) e cantada, aqui pelas cinco personagens criadas pelo libretista: Larissa Savchenko (Mãe), Sónia Alcobaça (Mulher), Madalena Boléo, (Cunhada), Luís Rodrigues (Homem) e Mário Alves (Irmão). Unindo as linhas (cordas ou filigrana) urdidas na partitura, brilhou a precisão do gesto de Cesário Costa
Bernardo Mariano
DN, 23 Dezembro, 2009

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Pinho Vargas e Vieira Mendes à procura de "Outro Fim"

Luis Rodrigues (Homem) e Madalena Boléo (Cunhada)


António Pinho Vargas estreia sábado uma nova ópera, com libreto de José Maria Vieira Mendes. Ana Dias Ferreira falou com os dois.

A história começa no Verão e acaba no Verão, uma volta de 360 graus através das quatro estações. Um ano de acção concentrado numa hora de ópera, com cinco cantores/personagens, 23 instrumentos e três espaços cénicos num só palco, visíveis em simultâneo. Pelo meio, um crime. Como se esta fosse uma ópera clássica, trágica, mas “em miniatura”, condensada. Uma ópera cuja história José Maria Vieira Mendes imaginou, e à qual o pianista e compositor António Pinho Vargas deu música. A estreia acontece este fim-de-semana, às 21.30, na Culturgest. A encenação é de André e. Teodósio.

Quando Pinho Vargas leu Outro Fim, o libreto encomendado pela Culturgest a Vieira Mendes em 2003, estava imerso na composição da sua terceira ópera, A Little Madness in the Spring. Ainda assim, à primeira leitura foi evidente: “Este pareceu-me o libreto mais conforme a uma ópera tradicional”, diz o compositor. “Trata-se de um drama familiar, e a clareza do texto, a plasticidade e a densidade psicológica das cinco personagens são muito adequados ao canto e à vocalidade.”

Como sempre, António Pinho Vargas começou pelo texto. Leu, releu, interpretou. E como tinha de começar a compor por algum lado, começou pela Mãe (no libreto é mesmo assim, as personagens não têm nome, são a Mulher, o Homem, o Irmão, a Cunhada e a Mãe). “Sendo uma ópera, a música existe em função das personagens”, diz o compositor, “e a primeira coisa que fiz foi tentar captar a musicalidade mais adequada à figura da mãe, que é uma personagem isolada, que não sai e quase não interfere com as outras personagens, mas é central”.

A segunda fase, continua Pinho Vargas, “foi compor lato sensu, tendo em conta o texto e a evolução das personagens”. Uma evolução “complexa”, considera o compositor, dando como exemplo a relação entre os dois irmãos: “No início da peça, um deles acabou de sair da prisão, não quer trabalhar, mas no fim da ópera apaixona-se e é o outro irmão que começa a beber e que está revoltado. Há uma troca de personagens muito interessante.”

Isso, essa troca de identidades, foi ideia de José Maria Vieira Mendes, que confessa que antes de escrever este libreto deu por si com a memória de uma cena do filme Persona, de Ingmar Bergman, em que os rostos de Liv Ullman e Bibi Andersson se sobrepõem.

Mas pensar a questão do outro não era tudo: “Tinha vontade de escrever um libreto condizente com um imaginário romântico de um espectador esporádico de espectáculos de ópera”, diz Vieira Mendes. “A morte do herói, o amor desencontrado, o suicídio ou homicídio, o desenlace trágico... Queria jogar com essa tradição clássica ao género Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Amor de Perdição ou West Side Story, e trazê-la para a pequena dimensão da ópera de câmara.” Espremendo, concentrando, fazendo a tal ópera trágica “em miniatura”. E assim dificultando a tarefa ao encenador.

André Teodósio, que já trabalhara com Vieira Mendes em Super-Gorila e Avarento ou a última festa, encontra no escritor um “prazer sádico em dificultar a realização da sua própria obra.” Como escreve o encenador nas notas ao programa, é como se o escritor acordasse e se pusesse a pensar em coisas difíceis de colocar em cena, como “o cair da noite, morrer e dar à luz, estações que mudam”. Pinho Vargas não ajudou muito. “Decidiu jogar o mesmo jogo”, diz Teodósio. “Compôs uma obra musical que joga claramente com a História da Música, com todos os géneros musicais, uma ópera que dilata e comprime, de uma complexidade técnica exímia.” E ainda tirou alguns músicos do tradicional fosso de orquestra e colocou-os em cima do palco, ao piano, nas cenas que se passam no café (as outras passam-se na casa do Irmão e da Cunhada e na casa da Mulher e da Mãe, mas está tudo à vista desarmada, lado a lado).

O título, Outro Fim, esse é “roubado” a um poema de Antero de Quental. Explica Vieira Mendes: “Em Outro Fim existe a ideia do tempo e do mundo redondo, com a passagem das estações do ano, dar a volta ao ano... E chega-se ao fim com a ideia de que se pode reiniciar. Mas este reinício, como está implícito no título, não seria para fazer o mesmo mas sim outra coisa”, continua o autor. “No fundo é a história da literatura. A história da linguagem. A história das artes: andar à volta das mesmas coisas mas sempre à procura de outras formas. À procura de um outro fim, mas nunca do fim definitivo.”


in timeout.sapo.pt